domingo, 7 de junho de 2015

O Futebol e o Racismo em Pelotas

Pelotas é a cidade que possui a maior população de afro-descendentes do interior do Estado, isto porque havia um grande contingente de negros escravos vinculados às charqueadas. Gutierrez (1999) mostra o contraste que existia em Pelotas, no período por ela estudado, entre os senhores endinheirados, querendo mostrar, através das obras arquitetônicas, seu gosto refinado e seu poder econômico, e os escravos, obrigados a trabalhar na produção econômica escravista do charque e também nos canteiro de obras da área urbana.

O objetivo deste trabalho, no entanto, é pesquisar o período pós-abolição. Nesse sentido, as colocações de Loner (2010, p. 182) são fundamentais:

A população afro-descendente de Pelotas foi trazida à região para trabalhar, sob o regime da escravidão. Posteriormente à Abolição eles se radicaram aqui, trabalhando em todo o tipo de serviço [...]. Em 1890, formavam cerca de um terço da população urbana de Pelotas e sua grande concentração na cidade tornou-os um dos principais grupos de trabalhadores do município.
Durante a maior parte do século XX, os negros sofreram muito com a segregação e o preconceito racial, que terminaram condicionando suas chances de ascensão social e de busca de emprego na cidade.

O Futebol

A primeira partida de futebol em Pelotas provavelmente ocorreu em 19014 (RIGO, 2004) e o primeiro clube da cidade, o Athlético Foot-Ball Club, foi fundado em 1904 (LONER, 1999; RIGO, 2004). Porém, Alves (1984, p. 16) diz que foi em 1906 “o primeiro grande ano do futebol em Pelotas”. Rigo (2004, p. 69) confirma que, “ao que tudo indica, 1906 pode ser considerado o ano em que o futebol deu os sinais indicativos de que veio pra ficar. A partir desse ano, cada vez mais, ele se fez presente nos eventos festivos e esportivos da elite pelotense.”

Este interesse da elite pelotense pelo futebol tem explicação geográfica (proximidade com Rio Grande, do clube mais antigo, e com a Argentina e o Uruguai, onde o futebol já era praticado antes do Brasil), mas tem, sobretudo, uma explicação econômica. Magalhães (1993, p. 296), comparando Pelotas a Porto Alegre, destaca que:

Os dois municípios praticamente se equiparavam, em desenvolvimento, no transcorrer do Império. Mas, em 1927, do total das receitas arrecadadas pelos municípios gaúchos, Porto Alegre participará com 43,2%, em primeiro lugar; Pelotas, mesmo em segundo lugar, terá o índice de 6,5%.

Loner (1999) também fala sobre a questão da tensão entre a elite e a democratização deste esporte em Pelotas. Para ela, o futebol. 

Desenvolveu-se primeiro junto às classes mais abastadas, mas rapidamente o futebol encontrou-se com a classe operária e demais setores populares. Já em 1909 havia o clube Aliança dos Operários, cuja primeira diretoria contemplava dois negros em posições de destaque. (LONER, 1999, p. 142) [...] Essa transformação iniciou ainda nos times de várzea e nas disputas migáveis, pois os principais campeonatos foram, por muito tempo, controlados pela elite. Dizer que o futebol era um esporte mais democrático não significa que ele fosse imune aos processos seletivos vigentes na sociedade. Houve discriminação racial em vários desses clubes, mais evidente nas diretorias, mas evidenciando-se, em alguns casos, também no campo de esportes. (LONER, 1999, p. 144)

Assim, em Pelotas “segundo a hierarquia antes apontada, destacam-se inicialmente os times de elite, como o: Brasil, Pelotas, Ideal, União, Rio Branco e outros” (LONER, 1999, p. 144).


Se parece consensual que o E. C. Pelotas surgiu com este viés elitista, o caso do G. S. Brasil, fundado em 1911 (RIGO, 2004), merece maiores cuidados. Como atualmente este clube é considerado popular, muitas vezes, isso produz a falsa impressão de que essa característica o acompanha desde o seu nascimento. BOANOVA (1997), por exemplo, afirmou que “a expressão ‘time de negros’ encontra no G. S. Brasil uma assimilação, pois este time realmente contava com negros entre suas equipes desde seu nascimento, sendo muitas vezes negros os ídolos da equipe” (BOANOVA, 1997, p. 17). Os trabalhos de Loner (1999) e Rigo (2004) apontam que essa característica popular não estava presente já na fundação. Loner (1999, p. 144) diz que: 

[...] o G. S. Brasil, nascido de uma dissidência no time de empregados da cervejaria Haertel, depois ficará conhecido como time "de negros", mas no início isso não se configura em suas diretorias, em que apareciam nomes de indivíduos da pequena burguesia, muitos deles filhos de imigrantes. 

Neste momento, o que fica explícito é a relutância inicial dos principais clubes pelotenses em aceitar jogadores negros. É nesse contexto que surge a Liga José do Patrocínio. Loner (1999, p. 144) assinala que:

A Liga José do Patrocínio foi fundada em 10/6/1919, congregando times negros da cidade e mantendo sua existência pelas próximas duas décadas. Faziam parte dela os clubes Juvenil, América do Sul, Universal, Vencedor, União Democrata e Luzitano. 

Rigo (2004, p. 150) também corrobora o surgimento dessa liga e o caráter que ela irá assumir, fazendo ainda algumas considerações sobre o quadro excludente que antecede a sua criação ao colocar que:

Como resultado do acúmulo dessas experiências de resistência e de contraposição à perpetuação exclusiva de um futebol branco e de elite, fundou-se em Pelotas, em 1919, a “Liga José do Patrocínio”, que logo se tornou conhecida como ‘a liga dos negros’. No primeiro ano de sua existência, fizeram parte de seu campeonato as seguintes equipes: ‘América do Sul, Juvenil e Vencedor’.  

Na imagem a baixo, é possível ver, se feita uma comparação com as outros duas imagens mostradas, o contraste entre os clubes (brancos) da Elite do futebol Pelotense e os clubes (negros) da Liga José do Patrocínio, nas primeiras décadas de prática do futebol em Pelotas.

Foto 3: Time do Juvenil de 1922 - O Clube disputava a Liga dos Negros

Nesse ponto da discussão, sobre o surgimento do futebol em Pelotas e os primeiros conflitos, que acabaram opondo a Liga (Branca) Pelotense de Foot-Ball e a liga (Negra) José do Patrocínio, cabe uma reflexão em relação às fontes. Os vestígios trazidos nesta pesquisa pretendem demonstrar a existência de preconceito na elite do futebol pelotense, nas primeiras décadas do século XX. Porém, isso pretende ser discutido a partir da percepção da não-existência de negros nos clubes da elite e da
investigação dos caminhos percorridos por eles para continuarem praticando o esporte, como no caso da Liga José do Patrocínio. É fundamental que se diga que não foram encontradas fontes que relataram um episódio claro, visível de negação da prática do esporte a um negro. Nesse ponto, percebe-se como os silenciamentos estão presentes na relação entre história e memória. Sobre essa questão Le Goff (1992, p. 109) lembra que:

A reflexão histórica se aplica hoje à ausência de documentos, aos silêncios da história. (...) Falar dos silêncios da historiografia tradicional não basta; penso que é preciso ir mais longe: questionar a documentação histórica sobre as lacunas, interrogar-se sobre os esquecimentos, os hiatos, os espaços brancos da história. Devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio, e fazer a história a partir dos documentos e das ausências de documentos.

Voltando ao debate sobre a Liga José do Patrocínio, os clubes da Liga, além das suas funções esportivas, pareciam ter um papel importante na reunião de membros da comunidade negra pelotense, dados os inúmeros convites para bailes que faziam. Mas foi em um episódio, a princípio alheio ao futebol, através do qual esta Liga mostrou cumprir um papel social que extrapolava o âmbito desportivo. A matéria de jornal abaixo se trata de um protesto contra um caso de preconceito que havia ocorrido e que tinha sido negado por outro jornal da cidade. O interessante dessa fonte não é saber qual foi o episódio que gerou a denúncia, pois por não ter relação com o futebol seria tema para outro estudo. O que é importante é que o representante da Liga José do Patrocínio foi o primeiro a assinar a moção de protesto, o que demonstra que a instituição interferia a favor dos negros, também em outras esferas e não apenas no futebol.

Preconceito de Casta - Moção de solidariedade das Associações e dos homens de cor desta cidade, ao periódico Porto-Alegrense ‘O Exemplo’. Nós abaixo firmados declaramos ao público em geral que estamos em plena solidariedade aos artigos publicados no ‘O Exemplo’, semanário que se edita em Porto Alegre sobre o caso dos preconceitos de raça, existentes no Teatro de Abril. O Vespertino local ‘A Opinião Publica’, um dos porta-vozes dessa seleção, entretanto, no dia 12 do corrente, teve o desplante de negar a existência do preconceito de cor, da parte da empresa Xavier & Santos e da própria sociedade pelotense; e tudo vem demonstrando o contrário. Pelotas, 12 de Julho de 1927. Jose Antonio Ferreira da Silva, pela Liga de Foot Ball José do Patrocínio; Alcides [...] Firma Reconhecida (O Libertador, 16/07/1927, p. 4).

* É possível citar, como exemplo, as matérias do A Alvorada de 3 de abril de 1932 (p. 7), de 10 de julho de 1932 (p. 2) e 14 de agosto de 1932 (p. 8), que convidam para os bailes organizados, respectivamente, pelos clubes Sport Club Juvenil, S. C. Universal e S. C. América do Sul.

Pode-se relacionar este indicativo de que o futebol também foi um instrumento de organização dos negros naquele período.

Talvez em parte pelas manifestações de inconformidade das entidades e dos grupos negros pelotenses e também, em boa parte, pelo movimento que estava em marcha por todo o país, o fato é que, com a proximidade dos anos 30, os negros foram gradualmente sendo mais aceitos nas principais equipes de futebol de Pelotas. Porém os reflexos deste quadro excludente inicial, que este trabalho pretendeu analisar, ainda podem ser percebidos, como nos recentes casos de injúria racial ocorridos no futebol brasileiro e mundial. Para além de um simples esporte, o futebol deve ser percebido, ainda mais no caso brasileiro pela dimensão da prática, como uma manifestação cultural que, como as demais, está em constante relação circular, influenciando e sendo influenciada, com as demais facetas sociais e que, por isso, é um importante e privilegiado objeto de estudo.


Pesquisa de:

CHRISTIAN FERREIRA MACKEDANZ
Universidade Federal de Pelotas
christian_mackedanz@hotmail.com


Fontes Primárias:

Jornal A Alvorada, Pelotas, anos de 1931 a 1935 (Biblioteca Pública Pelotense).
Jornal O Libertador, Pelotas, anos de 1924 a 1930 (Biblioteca Pública Pelotense).
Almanaque de Pelotas de Florentino Paradera. Anos de 1913, 1915, 1917, 1918, 1929, 1932 (Biblioteca Pública Pelotense). 
Revista Brasil Gigante. Edição da ORPAL – Org. de Pub. E Emp. Prom. Ltda. (Dir.) Edson, Pires. n. 1, 2, 3 e 4. 1971.

Nenhum comentário:

Postar um comentário